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Atentado à rejeição de Bolsonaro?

  • Foto do escritor: Observatório das Eleições
    Observatório das Eleições
  • 8 de set. de 2018
  • 3 min de leitura

Por Oswaldo E. do Amaral*


Foto: Fábio Rodrigues/ Agência Brasil

O atentado a Jair Bolsonaro (PSL), ocorrido na quinta-feira (06), deve alterar os rumos da campanha eleitoral. O candidato deverá se ausentar de atividades mais intensas nas próximas semanas, e seus adversários terão que recalibrar o tom da artilharia contra o capitão reformado.


Em um primeiro momento, é provável que a candidatura Bolsonaro, beneficiada pela superexposição na mídia como vítima, consiga conquistar alguns pontos entre os indecisos. Paralelamente, os ataques desferidos contra ele devem diminuir nos próximos dias. A ausência em eventos “não-controlados”, como entrevistas, sabatinas e debates, combinada com a atenção extra que ganhou e com a diminuição dos ataques diretos devem contribuir para a cristalização de sua performance entre os eleitores. Ou seja, o candidato não deve ter, nas próximas semanas, uma redução no seu eleitorado, pavimentando o caminho para o segundo turno.


Se a situação mostra-se favorável para a candidatura de Bolsonaro, o mesmo não pode ser dito sobre seu principal competidor no momento, Geraldo Alckmin (PSDB). A campanha do tucano apostava na queda do capitão como um dos fatores que poderia levar o PSDB para a quinta disputa seguida de segundo turno. Com menos chances de reverter os votos declarados em Bolsonaro, restará a Alckmin tentar conquistar os indecisos e brigar por atrair parcela dos eleitores de Marina Silva (REDE), João Amoedo (Novo) e Henrique Meirelles (MDB).


Na terça-feira, dia 11, o PT deve lançar seu candidato, provavelmente o paulista Fernando Haddad. É mais um evento que vai embaralhar a disputa pelo segundo lugar. Com máquina e nível de identificação partidária razoáveis, o PT deve se transformar em um player importante, disputando o espólio da candidatura de Lula com Ciro Gomes (PDT) e também com Marina Silva (REDE).


Para o resultado final, porém, é fundamental analisarmos se o evento de quinta-feira e seus desdobramentos políticos conseguirão mexer no tamanho da rejeição ao candidato do PSL. Neste momento, o nível de rejeição de Jair Bolsonaro torna muito difícil sua vitória no segundo turno, em que é necessário obter a maioria dos votos válidos.


Segundo pesquisa realizada pelo Ibope e divulgada no dia 05, antes portanto do atentado, 44% dos eleitores não votariam em Jair Bolsonaro “de jeito nenhum”. Os outros principais contendores apresentaram índices de rejeição entre 20% e 26%.

Para tentarmos entender melhor o que esse número significa, vejamos os índices de rejeição de candidatos em outras eleições em período semelhante. Desde 1994, nenhum dos principais candidatos à Presidência chegou no início de setembro com tamanha rejeição, segundo dados do Datafolha. Em 1994, Leonel Brizola (PDT) era rejeitado por 42% dos eleitores, e nem mesmo foi ao segundo turno daquela eleição, vencida na primeira volta por Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Entre os candidatos que venceram as eleições de 1994 a 2014, nenhum deles superava, neste mesmo período do ano, os 35% de rejeição. É de se notar também que nunca o primeiro colocado nas pesquisas eleitorais apresentou uma rejeição de 18 pontos percentuais maior do que a do segundo colocado. Em 2014, por exemplo, Dilma Rousseff (PT) era rejeitada por 32% dos eleitores enquanto Aécio Neves (PSDB), por 21%.


Os maiores índices de rejeição ao candidato do PSL são encontrados entre as mulheres (49%), os jovens (50% na faixa de 16 a 24 anos e 49%, na de 25 a 34 anos) e os eleitores que vivem na região Nordeste (52%). Os dados da pesquisa Ibope sobre um eventual segundo turno mostram que Jair Bolsonaro seria derrotado pelos três candidatos que disputam atualmente o segundo lugar.


Índices de rejeição podem variar ao longo das corridas eleitorais. Campanhas negativas podem ampliar a rejeição a determinado candidato e mudanças na conjuntura podem oferecer oportunidades para que os concorrentes tentem se reposicionar na disputa.


A principal questão no momento é observar se os eventos dos últimos dias serão capazes de representar uma queda significativa e duradoura nos índices de rejeição ao candidato do PSL, especialmente entre as mulheres. Se isso acontecer, ele se torna um candidato viável no segundo turno. Se tudo seguir como está, será derrotado. Difícil mesmo é saber por quem.










Os dados foram retirados do Datafolha (com pergunta semelhante à do Ibope) para as disputas entre 1994 e 2014 e organizados pela Equipe Cesop/Unicamp do Observatório das Eleições. Para 2018, dados do Ibope.



* Oswaldo E. do Amaral é professor da Unicamp e diretor do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da mesma instituição. Esse texto foi elaborado para o projeto Observatório das Eleições 2018

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